Depoimentos

           Andre Rota Sena

O movimento que se dá em torno do "Campo do Sarapíco" tem um significado especial para 
Santa Vitória do Palmar. 
Raras foram as vezes em que uma mobilização social, de cunho eminentemente popular, galvanizou uma iniciativa coletiva na história da cidade, talvez até não exista exemplo de outra ao par dessa, desde que ressalvadas aquelas de cunho político eleitoral. 
Ela deve, por isso, antes de qualquer objetivo imediato ter um caráter pedagógico: o de ensinar que é possível se revoltar contra uma ordem iníqua e transformá-la, ainda que localmente e localizadamente. Como todos sabem, o "Campo do Sarapico" é uma área militar em desuso há pelos menos 70 anos, privilegiadamente localizada no centro da cidade. 
Nada mais justo que seja destinada para fim e uso social, para a cultura, para o lazer, etc. Contudo, o que parece óbvio nem sempre é. O conservadorismo impõe que a área seja intocada, porque assim prescreve a lei ou o senso comum, ou seja lá quem for. Uma completa desatenção com o que, verdadeiramente, são as carências e anseios de uma civilização que tenta se afirmar diante de todas as dificuldades, próprias de uma cidade de interior, dum país situado na periferia do capitalismo mundial. 
Quando os militares, a partir da denuncia de um vereador, trouxeram seus "tanques e canhões" a fim de reaver a área, as pessoas se revoltaram. Acontece que, nem só de carros, motocicletas e novelas da rede globo vivem os homens e as mulheres, tal como diz a música: "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte". 
E assim, começa a tomar corpo essa mobilização, que não é bancada por nenhum político influente, que é fruto da imaginação e da criatividade de pessoas simples, para as quais o vazio do mundo das televisões já não completa a existência. Já nasce ousada a iniciativa ao tomar para si a chamada "ocupe", que inspira e mobiliza milhares, no "primeiro mundo", contra a ordem ditada por Wall Street, cuja base repousa sobre trilhões de dólares, que levaram o mundo a banca rota. Mas essa mobilização quer mais, ela quer que o Campo do Sarapico seja um parque, disponível e gratuito para toda a sociedade. 
Portanto, nesta luta, há um marco bem definido, onde estar pela ordem e pela propriedade do exército ou de quem quer que o valha é estar contra interesses democráticos, compreendidos a partir de uma necessidade eminentemente coletiva e popular.
*Imagens pessoais 

Brum Pereira
Participar de atos de cidadania como a ocupação do Campo do Sarapico nos permite criar um vinculo muito forte com a cidade onde moramos, ou onde nascemos. Ao sair do conforto do “lugar comum”, onde à perspectiva: do carro, da rua, da calçada ou da janela de casa, se tornaram hábito e entrarmos num parque ou praça deixamos de ser observados e passamos então a observar a cidade acontecendo em seu entorno. 
Esse ato aparentemente simples, muda a relação que temos com o tempo, com os compromissos do dia a dia. Faz-nos senhores do nosso tempo.
Tá? tudo bem! O que isso tem de novidade? 
Nada, se pensarmos em cidades onde já existem espaços públicos livres, e esse espaço público livre é onde eu quero chegar neste texto. Um lugar onde não há freios para a criatividade ou paredes que impeçam de conhecer a criatividade e o talento alheio, onde se pode dar bom dia, boa tarde e boa noite sem importar a quem. Contemplar ter lazer, fazer alguma atividade física, ou pueril deveria ser normal numa sociedade igualitária, mas como todos nós sabemos o Brasil, o Rio Grande do Sul e Santa Vitória do Palmar não são sociedades igualitárias e, portanto seu ato de contemplar, e ter lazer e administrar seu tempo da maneira que lhe aprazer pode ser considerado subversivo ou fora dos padrões. 
Já que os detentores do poder, quer político, quer econômico ou fundiário querem que você seja um autômato: _sim Senhor; _não Senhor.
Ocupar o Sarapico é além de garantir o espaço público pros cidadãos é garantir pras próximas gerações: a pandorga; a pelada dos sem camisa contra os com camisa; o guri aprendendo a andar de bicicleta; a roda de chimarrão dos amigos; o violão alegrando os namoricos da adolescência, o primeiro show daquele cantor que ficou famoso, o teatro de rua; o circo; o samba; o cata-vento na mão da criança enfim tudo aquilo que poderá ser comum das pessoas fazerem, no tempo livre que dispõem para se relacionar “intimamente” com sua cidade.
Não perca a chance de ser ator da sua vida e da dos seus filhos.
Ocupe o Sarapico, PRA SER LIVRE.
*Imagens pessoais

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